Astrônomos identificam um novo tipo de objeto cósmico - Resenha crítica - 12min Originals
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Astrônomos identificam um novo tipo de objeto cósmico - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O objeto que confundiu os astrônomos

Uma equipe internacional de astrônomos, com pesquisadores do Instituto Kavli de Astrofísica e Pesquisa Espacial, ligado ao MIT, e da Universidade de Bolonha, na Itália, publicou em 12 de agosto de 2026 na revista científica Nature a descrição de um objeto que não se encaixa em nenhuma categoria conhecida. Ele foi apelidado de "estrela de buraco negro" e recebeu o nome técnico MoM-BH*-1.

O objeto está na constelação de Cetus, a Baleia, a bilhões de anos-luz da Terra, e é visto como era cerca de 660 milhões de anos depois do Big Bang — ou seja, numa fase muito jovem do universo. Segundo o estudo, o conjunto teria o tamanho de todo o Sistema Solar, com um buraco negro central 100 mil vezes mais massivo que o Sol, envolto por uma camada gigantesca de gás.

O que torna o objeto estranho é a combinação de características. Ele se parece com uma estrela imensa, mas emite 100 bilhões de vezes mais energia do que qualquer estrela conhecida consegue produzir — um nível de energia compatível com o de buracos negros, não com fusão nuclear.

"Encontramos um novo tipo de objeto astrofísico, uma estrela de buraco negro", disse Rohan Naidu, autor principal do estudo, que fez o trabalho no Instituto Kavli e hoje está na Universidade do Havaí. Segundo ele, o objeto "brilha com a energia tipicamente associada a buracos negros, mas ao mesmo tempo carrega assinaturas classicamente associadas a estrelas".

A descoberta foi acidental. Os pesquisadores estavam usando o Telescópio Espacial James Webb para procurar as galáxias mais distantes já observadas, dentro de um projeto chamado MoM — sigla em inglês para "Miragem ou Milagre", nome que reflete a dúvida constante da equipe sobre se aquilo que apareceu nas imagens era mesmo uma galáxia antiga ou outra coisa. Foi nesse levantamento que apareceu o MoM-BH*-1, descrito por Naidu como o objeto mais vermelho de todo o arquivo de imagens do telescópio.

O enigma dos pontinhos vermelhos que o Webb via desde 2022

O objeto não é uma curiosidade isolada. Ele pertence a uma classe que incomoda os astrônomos desde 2022, quando o James Webb entrou em operação e começou a registrar, em praticamente todas as suas imagens profundas do universo antigo, pequenos pontos vermelhos — em inglês, Little Red Dots, ou LRDs.

Esses pontinhos aparecem por volta de 600 milhões de anos após o Big Bang e desaparecem algumas centenas de milhões de anos depois. Eles não se pareciam com nenhum corpo celeste conhecido, e a quantidade em que apareciam não ajudava a esclarecer o que eram. A investigação da equipe se estendeu por quase quatro anos, praticamente todo o tempo de operação do telescópio.

A explicação mais aceita era a mais simples: objetos distantes tendem a parecer avermelhados porque a poeira cósmica bloqueia com mais facilidade a luz azul. Seriam, portanto, galáxias ou estrelas escondidas atrás de poeira.

No MoM-BH*-1, os dados apontam outra direção. O vermelho parece ser produzido principalmente por uma quantidade enorme de gás extremamente denso e turbulento em volta do buraco negro, não por poeira. Esse gás funciona como um envoltório: parte da luz mais azul gerada perto do buraco negro não consegue escapar, enquanto os comprimentos de onda mais vermelhos atravessam com mais facilidade. As leituras não identificaram outros elementos além de hidrogênio e hélio, o que é coerente com um objeto formado quando o universo ainda era muito jovem.

Como a hipótese de uma estrela comum foi descartada

O passo decisivo veio da análise da luz em diferentes comprimentos de onda. Em determinada faixa, o brilho do objeto despenca mais de 20 vezes. Esse fenômeno tem nome: salto de Balmer, ou quebra de Balmer, uma assinatura típica de estrelas com alguns milhões de anos, como Vega, na constelação de Lira, a 25 anos-luz da Terra.

O problema é a intensidade. Segundo Naidu, "a quebra observada no objeto é a mais profunda já vista em qualquer objeto", o que retira de cena a hipótese de uma estrela comum. Ele também descreve como o mais dramático o modo como a luz é quase inteiramente vermelha e some abruptamente abaixo de certo comprimento de onda — sem comparação com qualquer classe conhecida de objetos.

Mesmo assim, restava a possibilidade de ser algum tipo de estrela antiga. Foi aí que entraram as simulações computacionais. Os pesquisadores não encontraram nenhum mecanismo estelar capaz de gerar a quantidade de energia observada — nenhuma estrela alimentada por fusão nuclear chega perto disso. Quando substituíram a estrela tradicional por um buraco negro nos modelos, os dados passaram a bater.

Havia um precedente. Em abril, o Observatório de Raios-X Chandra, da Nasa, detectou pela primeira vez os raios X de um desses pontinhos vermelhos, indicando que se tratava de um buraco negro envolto em uma grande nuvem de gás. Na ocasião, restaram duas hipóteses concorrentes: gás formando uma estrutura parecida com uma estrela, ou algum tipo diferente de poeira. O estudo publicado na Nature reforça a primeira.

O que isso muda para a teoria dos buracos negros supermassivos

Se a interpretação estiver correta, dezenas de outros pontinhos vermelhos catalogados pelo James Webb também são estrelas de buraco negro. E isso mexe com um problema maior.

Naidu suspeita que esses objetos tenham papel importante na evolução das galáxias e possam ser as sementes dos buracos negros supermassivos de hoje — inclusive o que fica no centro da Via Láctea. "Por décadas antecipamos que algo espetacular devia estar acontecendo no universo muito primitivo. Estrelas de buraco negro podem ser esse 'algo espetacular'. Elas podem ser a fase inicial, envolta, que marca o começo da jornada de quase todo buraco negro supermassivo", disse.

Há um efeito prático imediato. Se outros pontinhos vermelhos forem buracos negros vistos através de gás denso, as massas atribuídas a eles podem ter sido superestimadas — o que ajudaria a explicar como os primeiros buracos negros gigantes cresceram tão rápido, um dos incômodos abertos pelas observações do Webb.

Os próprios autores ressaltam que o modelo é uma interpretação para explicar as observações e que a formação desses objetos continua sendo questão em aberto.

Não é caso isolado: a infância dos buracos negros está sendo reescrita

Na mesma semana, um estudo publicado na revista Astronomy & Astrophysics descreveu a primeira galáxia jovem com um trio de buracos negros supermassivos ativos — a J0148-4214, a mais de 12,5 bilhões de anos-luz, o que a situa a cerca de 1 bilhão de anos após o Big Bang. Dois deles estão tão próximos que devem se fundir em cerca de 700 milhões de anos, segundo os cálculos de Hannah Übler, do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre e autora principal.

"A suposição sempre foi a de que esses buracos negros começaram a crescer no universo primitivo", disse Übler. "Agora estamos vendo isso em ação." O menor do trio tem a massa de 600 mil sóis; o maior, 80 milhões.

Para Steven Finkelstein, astrônomo da Universidade do Texas em Austin que não participou da pesquisa, entender como os buracos negros ficam tão grandes é "uma das questões mais importantes da astrofísica". As explicações em disputa incluem buracos negros que já nascem pesados, que consomem matéria em velocidade impressionante, ou que crescem por fusões sucessivas.

O que fazer com essa informação

O ponto para acompanhar é se a classificação se sustenta fora deste caso. O arquivo do James Webb tem dezenas de pontinhos vermelhos já registrados, e o teste do modelo será tentar aplicá-lo a eles — procure por novos artigos que reanalisem LRDs à luz do salto de Balmer e da hipótese do gás denso, em vez da poeira. Um objeto isolado é um achado; uma dezena reclassificada é uma mudança de categoria.

O segundo ponto é técnico e os próprios pesquisadores o apontam: o Webb sozinho não mede tudo. Eles citam futuros radiotelescópios como fonte de dados capazes de revelar propriedades que o telescópio atual não alcança. Enquanto essas observações não chegam, o modelo continua sendo interpretação, e vale ler as manchetes sobre "novo tipo de objeto cósmico" com essa ressalva no bolso — que está no próprio estudo, não fora dele.

O terceiro é o efeito cruzado entre os dois estudos desta semana. Se parte da luz que hoje se atribui a galáxias ou estrelas vier, na verdade, de buracos negros envoltos em gás, as massas estimadas de buracos negros do universo primitivo podem precisar de revisão — inclusive as do trio da J0148-4214. Isso não invalida aquele estudo, mas coloca as duas linhas de pesquisa na mesma conversa: uma mede quantos buracos negros havia e quão grandes eram, a outra questiona como essa medição é feita.

Por fim, vale reter a escala do que está em jogo. Buracos negros supermassivos ocupam o centro de quase todas as galáxias massivas, e Naidu argumenta que eles podem governar quando as estrelas conseguem se formar e quando param de se formar. Descobrir como eles começaram é, nessa leitura, descobrir por que o universo tem a forma que tem.

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